Compreendendo a arte
Não pretendo afirmar que a arte deva ser exata e que é vazia de subjetividade: há, sim, em seu campo, muita sensibilidade envolvida. Mas, ao falar em sentir, gostaria aqui de me referir a algo construído a partir de uma bagagem artística. Logo, apesar de podermos simplesmente gostar mais de uma cor do que de outra (gosta-se porque se gosta), não podemos limitar a arte a esse tipo de julgamento. Afirma-se isso, pois não se pode apresentar uma obra de arte contemporânea a um leigo e esperar que ele goste dela.
Tentarei ser mais clara: na avaliação das coisas banais, não há complexidade alguma, por isso pode-se aceitar o "gosto" ou "não gosto", que não são julgamentos complexos. Já naquilo que não é simples, não se pode satisfazer-se com o gostar ou não (gosto é gosto!). E a arte não é nem um pouco simples.
Assm, só compreenderá por que uma vaca morta dentro de um "aquário" é considerada um objeto de arte valiosíssimo, quem tiver o conhecimento da arte e compreender que essa não se limita à fruição espontânea do gostar. Precisa-se ter um olhar acostumado, uma história de freqüentação,leituras fundamentais e constante reflexão.
Um pouco de autobiografia: com 8 anos, meu ídolo era Da Vinci e meu anti-ídolo, Picasso. Pelos nove, dez anos, comecei a me interessar pelos impressionistas e achar os renascentistas desinteressantes. Já pelos doze, minha atenção voltou-se para Picasso (aquele sobre cujos desenhos expostos numa Bienal tive vontade de cuspir) e por ele fui obcecada por um bom tempo. Hoje, próxima dos dezoito, sou fascinada pela arte contemporânea e sua enorme variação de artistas: lúdicos ou agressivos, poéticos ou matemáticos, estáticos ou híbridos.... e poucas coisas me instigam tanto quanto os animais de Damien Hirst ou os monstrengos bizarríssimos de Patricia Piccinini.
Portanto, para entender a complexidade da arte atual, recomendo começar das coisas mais belas e tradicionais, passando por cada vanguarda, até chegar na metade do século XX. Se sobreviver até aí, digo, se estiver convencido de que tudo que se considera arte (pela crítica, pela história)merece essa denominação, já pode-se enfrentar a contemporaneidede. Algumas dicas básicas: arte não serve para decoração - aliás, não serve para nada, sua razão de ser é simplesmente de "arte pela arte" - por isso, esqueçam a interrogação:" Quem vai colocar isso em casa?!" . Segundo: arte não tem de ser necessariamente bela e agradável, desde que provoque alguma comoção na gente, positiva ou negativa. Logo, algo repugnante, revoltante, pode ser extremamente artístico. Por último, o valor da arte não está no trabalho que deu ao artista para executar a obra e sim no quanto essa nos toca. Portanto, se apenas uma linha no vazio me tocar, ela é arte. Além disso, pode parecer estranho, mas, normalmente, as obras mais minimalistas de um artista são as mais maduras, ou seja, para ele chegar nessa síntese extrema, ele teve de fazer coisas visualmente muito mais elaboradas.
Queria deixar claro que nesse texto me referi às artes visuais, mas acredito que também na música, na literatura ou no cinema, a teoria de que precisa-se de um "estudo" da arte, de uma familiarização com ela para poder-se compreendê-la é válida. Um exemplo bobo: quando se trata de Beatles, começa-se ouvindo Please Please Me , para depois se conseguir apreciar um White Album (se minha cultura musical fosse mais significativa daria um exemplo melhor).Da mesma forma, ninguém digere Galuber só tendo assistido a filmes hollywoodianos.
Por último, acho importante dizer que sempre haverá artistas com os quais não nos identificaremos, isto é, cujas obras não nos afetarão, por melhores que sejam. Eu, por exemplo, ao ver um Mondrian, pouco me emociono. Porém, isso não justifica eu desrespeitá-lo, pois tenho noção da relevância de sua obra, mesmo essa tendo pouco significado para mim. Por isso ressaltei no início do post a importância de separar a subjetividade da análise artística (crítica e objetiva).
O "mínimo" de Miró: cheio de expressão e posterior a muitos "exageros"
A fonte de Duchamp: impossível falar-se em ruptura, em um novo conceito de arte, sem passar por ela.
"Mother And Child", as vacas mergulhadas em formol: uma das obras mais caras de todos os tempos. Se alguém comprará para decorar sua casa? Improvável.
"Fantasia de Compensação" : o processo cirúrgico de um homem recebendo órgãos caninos, criação de Rodrigo Braga, do qual já falei aqui em outro post. Outra obra que desconforta, provocando náuseas e revolta.
"We Are Family": as criaturas horrendas de Patrícia Piccinini, provando que nem sempre o belo está presente na arte.























